O transtorno afetivo bipolar (TAB) é um grande problema de saúde no mundo que leva a morbidade e mortalidade significativas durante a vida. Apesar de o início da doença ocorrer tipicamente na juventude, há geralmente grande demora até que o diagnóstico seja feito e o tratamento efetivo iniciado (TAYLOR et al., 2011).
O TAB distingue-se pela presença de mania ou hipomania atual ou passada, durante dias, meses ou anos. Nesses períodos, houve humor irritável ou exaltado, maior entusiasmo ou impaciência e sensação de “pavio curto”, junto com aumento de energia mental e/ou física e maior impulsividade e ativação nos processos cognitivos. O TAB é classificado em dois subtipos mais importantes, TAB tipo I e TAB tipo II, respectivamente caracterizados pela presença de, no mínimo, um episódio de mania (com ou sem episódios hipomaníacos) e um de hipomania durante a vida, ainda que tenha (m) ocorrido apenas na adolescência (MORENO et al., 2016).


A característica essencial de um episódio de mania é um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável e aumento persistente da atividade ou da energia, com duração de pelo menos uma semana e presente na maior parte do dia, quase todos os dias (ou qualquer, se a hospitalização se fizer necessária). Um episódio de hipomania se caracteriza por um período distinto de humor anormal por pelo menos quatro dias consecutivos e presentes na maior parte do dia, quase todos os dias (DSM-5, 2014).
Apesar dos crescentes avanços no diagnóstico e no conhecimento do TAB, seu mecanismo fisiológico ainda não foi completamente desvendado. O que se sabe até o momento é que uma predisposição pessoal, determinada geneticamente, e determinados fatores estressores – como condições de nascimento, uso de drogas, alterações no funcionamento celular e ambiente – se combinam para gerar a alteração de comportamento (SOEIRO-DE-SOUZA & MISSIO, 2015). A Organização Mundial de Saúde (OMS) desenvolveu um estudo com o objetivo de obter estimativas de prevalência e impacto dos transtornos mentais em países representantes de todas as regiões do mundo. As taxas de prevalência durante a vida foram de 0,6% para o tipo I e 0,4% para o tipo II. No Brasil a prevalência geral de TAB foi de 2,1%, sendo 0,9% do tipo I e 0,2% do tipo II (MAGALHÃES, 2016).
Um inquérito realizado pela World Mental Health Survey Iniciative aponta como achado consistente que três quartos dos pacientes com TB também fecharam critérios para outro transtorno durante a vida. Os transtornos de ansiedade e o transtorno por uso de substâncias aparecem como as comorbidades mais comuns. Pessoas com TB apresentam risco de suicídio de 20 a 30 vezes maior que a população em geral, e o suicídio está entre as três principais causas de morte nesses pacientes, junto com câncer e doenças cardiovasculares (MAGALHAES, 2016).
A medicação é o tratamento eficaz, de primeira escolha, para o TAB, e seu uso é recomendado até mesmo pelas próprias pessoas que tem a doença. Mas, apesar de sua utilidade, cerca de 50% dos pacientes com transtorno bipolar abandonam a medicação ou não a usam regularmente ou na dose recomendada. Há muitos motivos para que isso ocorra, desde os efeitos colaterais até as crenças, muitas vezes equivocadas, sobre a doença e seu tratamento (BERK et al., 2010). Ao contrário do tratamento medicamentoso, que praticamente nenhum paciente gosta de fazer, o tratamento psicológico (ou psicoterapia) causa as mais variadas reações. Algumas pessoas preferem fazer terapia psicológica, evitando a todo custo o uso de medicações. Outras pessoas alegam não acreditar em psicoterapia, e acabam aceitando apenas os medicamentos. Por fim, existem os pacientes que são neutros, que nunca procuraram a psicoterapia, por isso não trazem expectativas específicas, e que aceitam iniciar um tratamento psicológico se for para melhorar o problema (TUNG, 2007).
Está bastante fundamentado e difundido na literatura que somente a farmacoterapia não é suficiente para mitigar as repercussões negativas do TAB. A combinação de farmacoterapia e intervenções psicossociais traz melhoras mais efetivas e duradouras em comparação à monoterapia com fármacos, especialmente no tratamento de manutenção de longo prazo. Existem estudos apontando a terapia cognitivo-comportamental (TCC), como tratamento adjunto a psicotrópicos, é efetiva para redução do número de hospitalizações, adesão à medicação, redução do número e frequência de episódios maníacos e melhora do funcionamento social (GURGEL & SOUZA, 2016).
A TCC é a modalidade psicoterapêutica mais estudada no TAB. As primeiras intervenções tinham como único objetivo o aumento da adesão à medicação através da modificação de comportamentos e reestruturação de pensamentos e crenças que contribuíam para a baixa adesão. Posteriormente, novos objetivos foram incluídos no processo de intervenção, como o aprendizado na descrição dos sintomas, monitoramento do humor, reestruturação cognitiva, desenvolvimento de comportamentos saudáveis, estratégias de comunicação e resolução de problemas (NEVES, LIMA & MALLOY-DINIZ, 2016).
Segundo Tung (2007), um dos maiores problemas para se enfrentar o TAB é o fato de o paciente não aceitar a doença e se recusar a procurar médicos ou tratamentos e dificilmente aceitaria tomar uma medicação se soubesse que seu problema é de fundo nervoso, ou que é um problema de doença mental. Procurar um psicólogo já seria um sacrifício enorme, pois poderia atestar que tem alguma fraqueza na mente. O fato é que poucas pessoas aceitariam facilmente que possuem uma fraqueza, ou doença grave. Via de regra as pessoas têm uma visão de si mesmos como pessoas capazes, competentes, autônomas e independentes, que não precisariam de ajuda de ninguém, ainda mais para seus problemas emocionais.
Ao receber o diagnóstico, talvez o paciente de TAB faça perguntas profundas de si mesmo, sobre quem é e o que o diagnóstico significa para seu futuro. A visão que se tem do TAB no momento do diagnóstico inicial pode ser influenciada por concepções errôneas e pelo estigma das doenças mentais. Não surpreende o fato de algumas pessoas reagirem com rebeldia e atribuírem seus sintomas a causas externas, como estresse no trabalho, dieta, exaustão e conflitos, ou a sua própria personalidade. Também há formas mais leves de negação. A “subidentificação” é quando o paciente manifesta certo reconhecimento do transtorno, mas sem aceitação real e sem assumir como algo próprio dele (BERK et al., 2010).
Um estudo realizado por Proudfoot apud Thomé (2010), sobre a experiência subjetiva de pacientes com TAB após receberem diagnóstico da doença, encontrou vários temas importantes, como ambivalência em relação ao uso da medicação, o impacto dos sintomas no cotidiano, o desafio de identificar sintomas prodrômicos e gatilhos de um episódio, sensação de falta de identidade, incerteza sobre o futuro e finalmente o estigma.
O estigma estaria então profundamente ligado à própria construção social da identidade. Os padrões que os indivíduos estigmatizados incorporaram da sociedade tornam-no intimamente susceptível ao que os outros veem como seu defeito, levando-o a concordar com sua condição de inferioridade. Expectativas de rejeição os levam a ter menos confiança e agir defensivamente, até mesmo evitando o contato social e a busca por oportunidades (CLEMENTE, 2015).
O TAB tem alto impacto na vida da pessoa e de seus familiares, trazendo significativo comprometimento nos aspectos sociais, ocupacionais e em outras áreas de funcionamento. Sendo assim, o auxílio da família e dos amigos é de suma importância no suporte à pessoa com transtorno.
Dia 30 de março é o dia internacional do Transtorno Afetivo Bipolar. Esta data é o dia do aniversário do pintor Vincent Van Gogh, que foi postumamente diagnosticado como sendo, provavelmente, portador do transtorno bipolar. A visão do Dia Mundial do Transtorno Afetivo Bipolar é chamar a consciência mundial para transtornos bipolares e eliminar o estigma social.

 

Referências:
BERK, L. et al. Vivendo com transtorno bipolar: um guia para entender e manejar o transtorno. Porto Alegre: Artmed, 2010.
CLEMENTE, A.S. Concepções dos psiquiatras sobre o transtorno bipolar do humor e sobre o estigma a ele associado. 2015. 283 p. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Fundação Oswaldo Cruz. Belo Horizonte.
DSM-5 / [American Psychiatric Associations; tradução: Maria Inês Côrrea Nascimento et al.]. – 5. Ed. – Porto Alegre: Artmed, 2014.GURGEL, W.S.; SOUZA, F.G.M. Profilaxia/manutenção no tratamento bipolar. In: KAPZISKE, F.; QUEVEDO, J. (Org.) Transtorno Bipolar: teoria e clínica. 2. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
NEVES, F.S.; LIMA, I.M.M.; MALLOY-DINIZ, L.F. Tratamento psicoterápico do transtorno bipolar. In: KAPZISKE, F.; QUEVEDO, J. (Org.) Transtorno Bipolar: teoria e clínica. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
MAGALHAES, P.V. da S.; COSTA, M.H., PINHEIRO, R.T. Epidemiologia do transtorno bipolar. In: KAPZISKE, F.; QUEVEDO, J. (Org.) Transtorno Bipolar: teoria e clínica. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
MORENO, R.A.; MORENO, D.H. Mania. In: KAPZISKE, F.; QUEVEDO, J. (Org.) Transtorno Bipolar: teoria e clínica. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
SOEIRO-DE-SOUZA, M.G.; MISSIO, G. Causa genética do transtorno bipolar. In: MORENO, R.A. et al. Aprendendo a viver com o transtorno bipolar: manual educativo. Porto Alegre: Artmed, 2015.
TAYLOR, M. et al. Early intervention for bipolar disorder: current imperatives, future directions. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 33, p. s197-s212, 2011.
THOMÉ, E. S. Associação entre estigma e funcionalidade em uma amostra de pacientes com transtorno bipolar. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Medicina: Ciências Médicas, 2010.
TUNG, T.C.; Enigma bipolar: consequências, diagnóstico e tratamento do transtorno bipolar. 3 ed. São Paulo: MG Editores, 2007.