O stress gestacional pode prejudicar significativamente o desenvolvimento psíquico e biológico do embrião/feto em formação. Nesse cenário não somente o stress se torna significativo, mas também os sintomas ansiosos da mãe, uma vez que a ansiedade compreende crenças de que no futuro existirão fontes de stress significativas, e que não existirá recursos por parte do sujeito, sejam eles psíquicos e/ou comportamentais, ou de ordem social para enfrentar as situações temidas (Clark & Beck, 2012). Neurologicamente viver situações mobilizadoras de recursos cognitivos, ou imaginá-las ativa áreas semelhantes no sistema nervoso central e periférico, portanto assim como no stress na ansiedade também existe a liberação de vários neuro-hormônios que preparam o organismo para lidar com a situação temida (Lipp & Tricoli, 2014).

Um dos principais neuro-hormônios envolvidos com esse processo é o cortisol, liberado tanto pela análise racional proveniente das estruturas corticais das fontes estressoras, como pela ativação do sistema límbico envolvido com o processamento emocional mais puramente. Após a liberação do cortisol no organismo, várias reações em cadeia podem ser percebidas, como sudorese, taquicardia, pensamento acelerado, tremores, tontura, etc. Essas reações objetivam preparar o organismo para agir e resolver as demandas do ambiente, em certa medida representa um importante mecanismo de adaptação do ser humano no ambiente em que vive, pois fornece motivação e energia. Porém, quando este sistema é ativado por longos períodos o organismo exaure suas forças e passa a sofrer as consequências disso (Lipp, 2010; Ventura, Neto & Simões, 2009).

Uma das principais consequências é a diminuição da atividade do sistema imunológico e, por conseguinte o aparecimento de doenças físicas e psicológicas como quadros clínicos de ansiedade propriamente e/ou de depressão (Wendland, 2016). Para a Terapia Cognitivo- Comportamental na tríade cognitiva da ansiedade, o sujeito se vê como incapaz de enfrentar as demandas de um mundo hostil onde está sozinho pois as pessoas não são dignas de confiança. Com o passar do tempo e a dificuldade para resolver os problemas que a vida impõe, o indivíduo passa evitar situações que possam ser fonte de desafios, a retrair-se do ambiente e do contato com as pessoas, surgindo então sintomas depressivos associados. Durante a gravidez a própria condição biológica suscita uma série de modificações hormonais que buscam manter a gestação, associado a essa vulnerabilidade biológica novos desafios são impostos a gestante, como adequar a sua vida pessoal, conjugal e profissional ao novo papel que irá desempenhar; o de mãe (Pressi & Falcke, 2016). Por si só, essas necessidades já podem ser vistas como fontes de stress, porém outras mais como adequações financeiras e conflitos familiares podem desencadear mobilizações emocionais significativas que afetarão tanto a sua saúde como a do bebê.

Estudos indicam que mães que passam por períodos recorrentes de stress e/ou ansiedade durante a gestação aumentam a possibilidade de desenvolver depressão pós-parto (Wendland, 2016). O cortisol por ser lipossolúvel tende a atravessar a barreira placentária com grande facilidade, contribuindo tanto para a modificação do fluxo sanguíneo, privando o embrião/feto de nutrientes e oxigenação adequada quanto restringindo o seu crescimento, predispondo a diabetes e doenças cardíacas. Assim, o excesso de cortisol durante a gravidez pode acarretar no nascimento pré-termo, além de afetar o desenvolvimento neuronal da criança, em áreas que futuramente serão responsáveis pela tomada de decisão, organização, planejamento, resolução de problemas, empatia e comportamentos sociais, linguagem, motricidade, percepção do medo, foco atencional e memórias (Ferreira, 2015; Ventura, Neto & Simões, 2009).

Cabe salientar a importância do vínculo materno-filial após o nascimento também, posto que normalmente os bebês nascidos dentro dessas condições apresentam comportamentos mais irritadiços e de difícil consolo ao nascer, portanto, são mais demandantes emocionalmente da mãe (Pereira, Rodrigues, Carvalho & Chiodelli, 2015). Levando em consideração que a mãe já passava por períodos de stress e/ou ansiedade anteriormente, a tendência é que após o nascimento essas condições se mantenham, ou sejam agravadas com a chegada de um novo membro oficialmente no circuito familiar. Essas mães, via de regra, acabam por não perceber as necessidades emocionais das crianças, deixando de satisfazer de forma adequada além de cuidados orgânicos, a imposição de limites de forma adequada, desenvolvendo a autonomia, a espontaneidade e lazer, o senso de competência, o investimento no vínculo, e a valorização das manifestações emocionais. Necessidades essas que naturalmente já variam de acordo com cada criança, que já nasce com predições genéticas que darão origem ao temperamento e a personalidade após a interação com o ambiente, durante a infância os principais cuidadores são os indivíduos que irão inserir a criança no contexto social, apresentando-lhe o mundo (Pressi & Falcke, 2016).

Dessas relações iniciais até a adolescência principalmente, os principais esquemas mentais serão formados mediante a interação desse temperamento geneticamente adquirido e as influencias ambientais, sejam elas familiares – no suprimento das necessidades emocionais -, ou sociais mais amplas. Esses esquemas mentais são conjuntos de crenças sobre determinados conteúdos que serão o alicerce de compreensão do mundo, das pessoas e de si próprio. Todos os indivíduos possuem esquemas mentais para organizar a vida psíquica, porém quando existem inflexibilidade e polarização das crenças (tudo ou nada), prejuízos na vida cotidiana começam a surgir e podem dar origem a quadros psiquiátricos. Levando em consideração na relação materno-filial exposta anteriormente que já existe maior vulnerabilidade – tanto genética, quanto a exposição pré-natal ao cortisol -, ainda existe os sintomas de stress e/ou ansiedade apresentados pela mãe que continuará contribuindo no desenvolvimento psíquico do bebê após o nascimento (Pressi & Falcke, 2016).

Algumas alterações ocorridas durante o desenvolvimento podem ser amenizadas ou revertidas quando não representam alterações genéticas, mas somente na expressão da síntese proteíca. Porém, alterações transgeracionais (uterinas), são mais difíceis de serem modificadas até o momento (Zucchi, 2016). Por isso, cabe levantar a importância do ambiente familiar como rede de apoio da mulher durante a gestação, buscando compreender empaticamente as mudanças, fornecer suporte emocional, evitar críticas desnecessárias, comparações. Além de auxiliar nas funções básicas após o nascimento do bebê, não se esquecendo da mulher que existe concomitantemente ao papel de mãe, e da necessidade de carinho e atenção que esta também precisa após o nascimento da criança. Quando nasce um novo bebê também nasce uma nova mãe! Dessa forma existirá maior possibilidade para que ela consiga receber da melhor maneira possível dentro das condições momentâneas o novo ser que chegou para fazer parte da família, posto que nos meses iniciais do desenvolvimento o centro das necessidades do bebê está voltando para a pessoa que desempenha as funções de maternagem, uma vez que a criança ainda não consegue se distinguir do ser que a gerou (Gerhardt, 2017).

Além dos aspectos preventivos algumas práticas como exercício físico regular, alimentação balanceada, práticas de relaxamento e monitoramento das cognições disfuncionais são de fundamental importância na regulação do stress e da ansiedade (Lipp, 2010). Em relação ao monitoramento e modificação dessas cognições a Terapia Cognitivo-Comportamental vem se monstrando como uma importante abordagem em pesicoterapia, validada cientificamente para criar estratégias de reestruturação que possibilitam reduzir ou modificar variáveis que contribuam para alimentação de conflitos interpessoais através da assertividade, por exemplo, diminuir a procrastinação, trabalhar sob a resolução de problemas, dentre outros fatores de ordem prática e subjetiva que podem contribuir para alimentar a percepção e interpretação dos agentes estressores e ansiogênicos (Clark & Beck, 2012). Sendo assim, o processo terapêutico não serve unicamente para quadros já instalados de transtornos psiquiátricos, mas também para prevenir e trabalhar problemas cotidianos gerados de sobrecarga mental, presentes no cotidiano de todos os seres humanos.

 

Referências:

 

Clark, D. A., Beck, A. T. (2012). Terapia cognitiva para os transtornos de ansiedade. Porto Alegre: Artmed.

Ferreira, C. F. (2015). Interações entre exposição a trauma no início da vida e deficiência de ácidos graxos poliinsaturados N-3 em marcadores biológicos de transtornos psiquiátricos (Tese de doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

Gerhardt, S. (2017). Por que o amor é importante: como o afeto molda o cérebro do bebê. (Ed.2). Porto Alegre: Artmed.

Lipp, M. E. N. (Org.). (2010). Mecanismos neuropsicofisiológicos do stress: teoria e aplicações clínicas (Ed. 3). São Paulo: Casa do psicólogo.

Lipp, M., Tricoli V. (Orgs.). (2014). Relacionamentos interpessoais no século XXI e o estresse emocional. Nova Hamburgo: Sinopsys.

Pereira, V. A., Rodrigues, O. M. P. R., Carvalho, S. Z. L., Chiodelli, T. (2015). Influências do estresse e ansiedade puerperal nos primeiros meses do desenvolvimento infantil. Caderno de pós-graduação em distúrbios do desenvolvimento, (15)1, 89 – 100. Recuperado de http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cpgdd/article/view/11279

Ventura, T., Neto, M. T., Simões, M. (2009). Efeitos do stress durante a gravidez na morfologia cerebral do feto e da criança. ResearchGate, 21(2), 77-84. Recuperado de https://www.researchgate.net/publication/273760546

Pressi, J., Falcke, D. (2016). Influência da família de origem nos domínios de esquemas. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. (12)2, p. 73 – 82. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872016000200003

Wendland, J. (2016). Impacto da depressão, ansiedade e estresse durante a gravidez no feto e no recém-nascido: interações biocomportamentais perinatais entre a mãe e a criança. In Barr, M. (Org.) Neurociências e Educação na Primeira Infância: progresso e obstáculos. Infância e Paz, Brasilia, DF, Brasil, IX.

Zucchi, F. C. R. (2016). Inato ou Adquirido: Como Fatores Epigenéticos Influenciam o Desenvolvimento Infantil. In Barr, M. (Org.) Neurociências e Educação na Primeira Infância: progresso e obstáculos. Infância e Paz, Brasilia, DF, Brasil, IX.