Você conhece alguém (ou é alguém) que age como se o mundo girasse a seu redor; dita e quebra as regras; diminui as outras pessoas e as humilha; exige muito dos outros; é desconfiado(a); perfeccionista; acredita que é superior aos outros; sente-se entediado com facilidade; é obcecado(a) por aprovação; não tem interesse em entender a experiência interna das outras pessoas; pouco sente ou não sente remorsos; é compulsivo(a); viciado(a) (não consegue abrir mão de antigos hábitos) e é emocionalmente distante (evita sentir emoções)?  De acordo com Wendy Behary (2011), se você se identificou com a maioria dessas características ou as identificou em alguma pessoa, provavelmente trata-se de alguém com personalidade narcisista (Obs. Para um diagnóstico correto, consulte um psicólogo ou psiquiatra). Se houve identificação, não há motivos para desespero. Na verdade você já sabia dessas características. Apenas não sabia que existe um nome (Behary, 2011)

Nem sempre é fácil identificar pessoas com essas características. Young, Klosko e Weishaar (2008) nos falam sobre o “narcisista dentro do armário”. Podem até ter atitudes agradáveis, despretensiosas, mas em sua fantasia, se sentem superiores. Behary (2011) chama essas pessoas de narcisistas velados. São “mártires” que estão sempre destacando as formas “certas” e “erradas” de viver o mundo. “Eles estão sempre se diferenciando daqueles ‘tipos preconceituosos de pessoas’ e daquelas que são ‘egoístas e preguiçosas’ (2011, pg. 52). Behary indica que o narcisista velado está sempre querendo ajudar, encontrar soluções com base em sua própria filosofia de vida. Ele fala “deve”, “Tem de”; “Sempre”. Diz que o mundo seria melhor se as pessoas seguissem as regras (dele, é claro). A seguinte frase destacada por Behary ilustra bem esse tipo de narcisista: “Claro, poderia falar sobre os dez mil dólares que doei àquela fundação filantrópica, mas não sou esse tipo de pessoa. Não preciso de louvação para minha vocação filantrópica”.

A maioria das pessoas narcisistas são do gênero masculino, cerca de 75 a 80%. As mulheres narcisistas são as grandes damas, prima-donas e rainhas do drama. Podem usar seus “lindos filhos” para auto engrandecimento. Ela ainda “capturará você em um discurso irritado sobre o quanto tem de fazer, fez, fará e o quanto não será apreciada por isso. Totalmente imersa em seu martírio, essa vítima virtuosa está, muitas vezes, a não mais do que centímetros de seu próximo vômito emocional” (Behary, 2011, pg. 46).

Com essas características, não é difícil de entender porque os narcisistas ao mesmo tempo atraem e repelem as pessoas (Behary, 2011). Cedo ou tarde na vida, é bastante provável que uma pessoa narcisista comece a ter algum tipo de problema interpessoal, seja nos relacionamentos amorosos, acadêmicos, sociais ou laborais. São pessoas que facilmente podem fazer outras pessoas sofrerem. E elas próprias também. Se você é, convive ou é um profissional da área da saúde que trata pessoas com essas características, é essencial saber de onde surgem esses comportamentos. 

É praticamente um consenso na literatura que a maioria das pessoas narcisistas, lá no fundo, se acha defeituosa. Essas pessoas foram e são privadas emocionalmente, além de serem solitárias. Young, Klosko e Weismaar (2008) afirmam que quatro fatores normalmente caracterizam os ambientes infantis de pessoas narcisistas: Solidão e Isolamento; Limites insuficientes; Histórico caracterizado por uso e manipulação e Aprovação Condicional. Em resumo, o ambiente infantil de pessoas narcisistas não foi adequado. Muito pelo contrário. Assim, as características que repelem as outras pessoas foram e são os escudos (frágeis) que encontraram para lidar com a dor, crenças de inferioridade, ideia de ser indigno de amor, imperfeição e vergonha (Behary e Davis, 2017). Como uma pessoa pode demostrar amor genuíno e empatia, por exemplo, se ela nunca recebeu isso? Só fazemos o que aprendemos, não é mesmo?

No fundo, apesar de eventualmente provocarem reações desagradáveis, as pessoas narcisistas merecem o mesmo respeito e empenho do profissional da psicologia que outros pacientes recebem. Pelo menos é isso que acreditamos enquanto psicólogo(a)s. A mudança, embora muitas vezes longa e difícil, é possível. É possível se tornar um narcisista legal e saudável. A psicoterapia é um dos caminhos para alcançar esse objetivo, mas não o único. Grupos de apoio, religiosidade, espiritualidade, etc. são outras opções. A escolha parte de cada pessoa. O primeiro passo para a mudança é a identificação e aceitação dessas características. Tudo bem, mas o que seria um narcisista legal e saudável?

Wendy Behary (2011) expõe que o narcisismo não é de todo ruim. O narcisismo saudável contém as sementes da autoafirmação e do autorrespeito. Já na infância, um pouco de narcisismo é fundamental para nossa sobrevivência, pois ajuda a criança a expressar o desconforto físico e emocional, sobretudo nos anos pré-verbais. “A criança fica zangada, chora, exige atenção para obter proteção, aprovação, conforto e envolvimento nas brincadeiras. Esse é um comportamento saudável e apropriado do ponto de vista desenvolvimentista” (2011, pg. 54).

No que tange aos adultos narcisistas adaptativos, ou saudáveis, é útil reconhecer que essas pessoas podem desempenhar papéis importantes em sua comunidade, sociedade, equipe, família, e assim por diante (Pense no piloto do avião demonstrando tranquilidade em condições climáticas adversas; no profissional da saúde que você confia e sabe que pode ajudar a resolver seu problema; no repórter que não tem medo de fazer certas perguntas; no jogador do seu time que pega a bola para bater o pênalti no último minuto e faz o gol; naquele líder da empresa que todos gostam e confiam, etc). Em tese, se um narcisista desadaptativo conseguir curar sua “criança” solitária, ferida, e perceber que ele não precisa usar a maioria dos seus escudos e armas emocionais compensatórias, ele pode ser tornar uma narcisista legal que, segundo Behary (2011), tem várias das seguintes características:

  • Empático: sintonizado com o mundo interno dos outros;
  • Sedutor: carismático, com traquejo social e amigável do ponto de vista interpessoal;
  • Líder: capaz de conceitualizar um propósito, ou uma visão, e de trocar uma direção ao colaborar com outras pessoas.
  • Controlado (não egoísta): confiante e rigorosamente comprometido com a generosidade e a autenticidade.
  • Busca reconhecimento: motivado por expressões de aprovação e por fazer a diferença.
  • Determinado: capaz de abrir caminho na vegetação cerrada da oposição.
  • Confrontador: pode responsabilizar os outros sem assassinar suas almas.

Na mitologia grega, Narciso foi um homem condenado a se apaixonar eternamente pela própria imagem refletida em um lago da montanha, como punição por recusar uma oferta amorosa de Eco, uma jovem ninfa. Narciso desejava apenas sua imagem ardentemente, mas nunca realmente a possuiu. Assim, Narciso simplesmente definhou e foi transformado em uma bela for. A moral dessa tragédia é que a verdadeira beleza e o potencial para ser amado florescem quando o amor obsessivo e excessivo por si mesmo expira (Behary, 2011). Saindo do mundo mitológico e entrando em nosso mundo contemporâneo, que tal se tornar um narcisista legal sem precisar definhar?

Referências

Behary, W. Ele se acha o centro do Universo. Best Seller, Rio de Janeiro, 2011.

Behary, W.; Davis, D. Transtorno da personalidade narcisista. In. Terapia Cognitiva dos transtornos da personalidade. Beck, A.; Davis, D.; Freeman, A. Artmed, Porto Alegre, 2017.

Young, J.; Kloslo, J.; Weishaar, M. Terapia do Esquema. Artmed, Porto Alegre, 2008.