Imagine uma zebra em uma vasta savana, ela está com sua manada em um ambiente repleto de predadores e diante da privação de água busca um local para matar a sua sede. Agora imagine um leão que sedento de fome observa na pequena zebra a chance de se alimentar. Em questões de segundos a zebra foi atacada e mesmo ferida conseguiu fugir, deu se início então a uma caçada feroz, onde ambos animais possuem o mesmo objetivo: sobreviver. 

Esse é um exemplo de uma situação extremamente estressante que exige uma adaptação imediata do organismo a fim de assegurar a sobrevivência.¹ Isso é chamado de estresse agudo, ou seja, é a ativação do nosso mecanismo de luta ou fuga (veja mais) diante de um perigo eminente. Isso acontece com o leão e com a zebra na savana, mas também ocorre com uma pessoa durante um assalto, em períodos de secas, fome, acidentes, guerras e etc. “As reações do corpo ao estresse são razoavelmente boas quando se trata de suportar horrores dessa natureza”.¹

Se a reação do nosso organismo ao estresse possui uma função evolutiva tão importante e se o nosso corpo está tão adaptado para lidar com situações de perigo, por que ele é considerado um problema e até mesmo patológico? Ora, porque os tempos mudaram! Em um passado não muito remoto nossos principais estressores envolviam questões primordiais para sobrevivência como conseguir um alimento ou fugir de um predador. Hoje você pode comprar um pedaço de carne no supermercado próximo ao seu lar e não precisa literalmente correr atrás do seu jantar.

A vida moderna impõe exigências e com ela surgem novos estressores prevalentes nos ambientes sociais.² Estamos vivendo mais e com tempo suficiente para criar os mais diversos eventos estressores em nossas cabeças, se antes os estressores eram específicos para perigos reais, hoje eles se generalizaram e ativamos nosso mecanismo de alerta até mesmo para escolher com que roupa ir para uma festa. “Somos capazes de vivenciar emoções fortes e incontroláveis (promovendo, em seguida, um tumulto em nosso corpo) provocadas por meros pensamentos”.¹

 

O grande problema do estresse não diz respeito ao seu funcionamento adaptativo, ou seja quando nosso corpo reage à um perigo real ou quando esporadicamente ativamos nosso “alarme” (ao conhecer uma pessoa nova, no primeiro dia de trabalho ou minutos antes de uma prova). A resposta ao estresse se torna desadaptativa quando somos expostos com frequência aos estímulos estressores, imagine o seu sistema de luta e fuga ativado todos os dias? Com todas as alterações fisiológicas que ele acarreta? “Portanto, o estresse agudo é adaptativo, mas a manutenção de seus efeitos em longo prazo pode levar ao estresse crônico, gerador de imunodepressão do sistema imunológico e muitas doenças, por isso, não adaptativo”.²

A resposta frequente ao estresse, duradoura ou intensa, está relacionada ao esgotamento dos recursos de um indivíduo e ao aparecimento de transtornos psicofisiológicos diversos, inclusive transtornos de ansiedade e depressão.³ A prevalência do estresse no mundo é alta e preocupante e várias organizações estão promovendo reuniões mundiais para a discussão de medidas preventivas que possam reduzi-la.⁴

 

Referências:

 

¹ SAPOLSKY, Robert M.Porque as Zebras não têm Úlcera? São Paulo: Francis, 2008. 290p.

 

² GARCIA, Marcio Rodrigo. Origem e Evolução: O Estresse como Resposta Adaptativa no Contexto da Vida Moderna. Avesso do Avesso v.12, n.12, p. 7-15, novembro 2014.

 

³ MARGIS, Regina; PICON, Patrícia.; COSNER, Annelise Formel; SILVEIRA, Ricardo. Relação entre Estressores, Estresse e Ansiedade.R. Psiquiatr. RS, 25′(suplemento 1): 65-74, abril 2003

 

⁴ LIPP, Marilda E. Novaes; COSTA, Keila Regina da Silva Nunes  e  NUNES, Vaneska de Oliveira. Estresse, qualidade de vida e estressores ocupacionais de policiais: sintomas mais frequentes. Rev. Psicol., Organ. Trab. [online]. 2017, vol.17, n.1 [citado  2018-06-10], pp. 46-53