O termo Terapia Cognitivo-Comportamental, popularmente conhecida como TCC, atualmente é um conceito “guarda-chuva”, que abrange várias formas de psicoterapias cognitivas, com ênfases, procedimentos e estratégias diferenciadas entre si. O que permanece em comum em todas essas psicoterapias, em nossa opinião, é princípio da mediação cognitiva, ou seja, a ideia básica de que entre um estímulo (interno ou externo) e as consequências (fisiológicas, emocionais ou comportamentais) há uma cognição, uma interpretação individual. Daí a utilização constante de uma concepção da filosofia estoica: “O que perturba os homens não são os fatos, mas a interpretação que este faz dos fatos (Epitectus, século I). A cognição, diga-se de passagem, se refere a todas as estruturas teóricas necessárias para apoiar o processamento da informação (BECK e ALFORD, 2000) e isso inclui os nossos pensamentos (automáticos ou reflexivos), ideias, imagens visuais e crenças enraizadas, para citar alguns exemplos.

Uma pessoa com ansiedade patológica pode interpretar um estímulo, como uma viagem que precisa fazer, de uma forma catastrófica. Pode ter pensamentos automáticos de que o avião vai cair ou de que o carro vai capotar e todos vão morrer. Esses pensamentos podem causar vários sintomas de ansiedade, como palpitação, sudorese, calor, entre outros, e influenciar um comportamento, como evitar as férias ou viajar a base de medicamentos ansiolíticos. Portanto, no modelo de mediação cognitiva, o que causou a ansiedade patológica e o comportamento evitativo ou de tomar remédios não foi a viagem em si (estímulo), mas a interpretação catastrófica da viagem. Em outro exemplo, uma pessoa com transtorno alimentar pode ter um pensamento bastante distorcido sobre a forma e peso corporal (estímulo), o que influencia o humor e comportamentos como recusa alimentar ou comportamentos de purgação após a alimentação, como provocar vômitos ou fazer atividade física em excesso. Uma pessoa com depressão pode pensar que não tem valor algum para outras pessoas e que o futuro será terrível, mesmo sendo amado pelas pessoas em sua volta. Em suma, cada problema psicológico apresenta um conjunto de pensamentos, interpretações, mais ou menos categorizados, o que em TCC é chamado de hipótese de especificidade de conteúdo (BECK e ALFORD, 2000; KNAPP, 2004).

Tendo em vista que a TCC tem como ideia básica que nossas emoções e comportamentos são fortemente influenciados pela forma como pensamos, a maioria das formas de TCCs busca, num primeiro momento, ajudar os pacientes a identificar a maneira como pensam ou interpretam os estímulos. Na TCC, acreditamos que as pessoas podem aprender, entender e monitorar a forma como pensam. Num segundo momento, por meio de várias técnicas, o psicoterapeuta cognitivo auxilia o paciente a examinar criticamente o conteúdo dos pensamentos e avaliar o quanto esses pensamentos estão próximos ou distantes da realidade objetiva dos fatos. Por “realidade objetiva dos fatos”, entende-se todas as coisas concretas que acontecem no mundo, sejam estímulos externos (uma viagem ou uma discussão, por exemplo), ou estímulos internos (por exemplo, sentir raiva de alguém e depois sentir-se culpado devido a crença de que não se pode sentir raiva das pessoas).

É importante ressaltar que não é o psicoterapeuta quem diz ao paciente quais são os pensamentos e interpretações mais adequadas. O papel do profissional é ser uma espécie de mediador entre o paciente e seus pensamentos e os fatos concretos da realidade. É o paciente que reestrutura sua forma de pensar e/ ou constrói ativamente pensamentos mais adaptativos e úteis à sua vida. Diga-se de passagem, existe na TCC um pressuposto filosófico (Fundamentado nas ideias do filósofo Emmanuel Kant) que diz que não é possível alcançar e interpretar a realidade com 100% de exatidão, mas que há pensamentos mais próximos ou muito distantes dessa realidade (MORENO e WAINER, 2014). Utilizando um dos exemplos anteriores, uma pessoa pode ter um peso e forma corporal muito abaixo do que seria normal e saudável aos olhos dos familiares e profissionais da área da saúde, mas pode ter o pensamento de que está excessivamente grande ou acima do peso. Uma pessoa adulta com anorexia nervosa pode ter um peso de 40 quilos ou menos (dado objetivo da realidade), mas pensar que está muito gorda e que precisa emagrecer.  Esse é um exemplo de interpretação que está distante da realidade, ou distorcida, para utilizar um outro termo comum em TCC. No processo psicoterapêutico, na medida em que a pessoa modifica a forma de pensar para que fique mais próxima da realidade, automaticamente tal mudança vai influenciar a regulação emocional e comportamental, melhorando a qualidade de vida.

Também é importante ressaltar que, em várias situações, o paciente não apresenta, necessariamente, pensamentos distorcidos ou muito distante da realidade objetiva. O paciente pode ter um problema e estar interpretando esse problema de forma bastante acurada. Por exemplo, pode estar vivenciando um relacionamento abusivo e ter o pensamento de que “não pode continuar do jeito que está, pois a situação só tende a piorar”.  Nesse caso, num problema “real”, a cognição é utilizada para resolver o estímulo ambiental. Ou seja, enquanto algumas formas de psicoterapia enfocam o inconsciente, e outras enfocam a mudança ambiental, para citar alguns exemplos, na TCC, normalmente parte-se da cognição. É por meio do pensamento consciente, do pensamento reflexivo ou metacognitivo, que o paciente pode encontrar soluções para seus problemas. Em relação ao exposto nesse parágrafo, algo importante precisa ser ressaltado. Embora a TCC dê ênfase à cognição, jamais ignora outros componentes essenciais na vida de uma pessoa, como os aspectos biológicos, emocionais, evolutivos, comportamentais, sociais, culturais, econômicos, e assim por diante. O que a TCC prega no processo psicoterapêutico é o papel preponderante da cognição na interação entre todos esses aspectos, e não a exclusividade cognitiva (BECK e ALFORD, 2000).

Em termos práticos, embora não seja uma regra, o processo psicoterapêutico tende a ser estruturado, colaborativo e com foco na resolução de problemas. Não é uma regra, pois há várias formas de TCCs, além de pacientes com personalidades e demandas das mais diversas. Logo, uma prática totalmente estruturada não seria a mais adequada à um paciente com características rígidas e inflexíveis, por exemplo, uma vez que isso poderia acentuar tais características. Por outro lado, a estruturação pode ser bastante benéfica para um paciente com Déficit de Atenção e Hiperatividade/Impulsividade, que tem problemas com organização e planejamento. Portanto, na prática, a TCC é estruturada, mas não inflexível, sendo que o bom profissional deve estar atento às necessidades de cada paciente. Para que não fique somente nas entrelinhas, ressaltamos que uma única forma e técnica psicoterapêutica não é suficiente para abarcar a complexidade humana.

Por fim, no que tange à cientificidade, desde o seu início, ainda na década de 1950, a TCC sempre buscou avaliar os seus protocolos clínicos e verificar sua eficácia por meio de pesquisas sistemáticas. Ainda hoje é uma forma de psicoterapia que visa utilizar as teorias e técnicas que se mostram empiricamente válidas, inclusive, abandonando ao longo do tempo aquilo que não se mostrou útil para aliviar o sofrimento humano. Finalizando, acreditamos que é relevante destacar que a TCC não promete soluções mágicas ou a cura total dos problemas existenciais, mas oferece uma série de recursos para que o paciente alivie o sofrimento e enfrente os problemas e desafios diários de forma adaptativa, objetivando ao longo e após o processo psicoterapêutico uma vida mais significativa e saudável.

 

Referências

 

BECK, Aaron; ALFORD, Brad. O poder integrador da Terapia Cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 2000.

KNAPP, Paulo. Princípios fundamentais da terapia cognitiva. IN. KNAPP, Paulo. Terapia Cognitivo-Comportamental na prática psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed, 2004. p. 19.41.

MORENO, André Luiz; WAINER, Ricardo. Da Gnosiologia à Epistemologia: Um caminho científico para uma terapia baseada em evidências. Revista Brasileira de Terapia Comportamental Cognitiva, 2014. Vol XVI, no. 1, 41-55.