Domingo, final da tarde, sinto uma súbita sensação de desconforto: um aperto no peito, respiração acelerada e o desejo que o tempo passe devagar. Ao questionar as possíveis causas do meu desalento, me deparo com pensamentos automáticos relacionados a tudo o que irá acontecer durante a semana, agenda, reuniões e afazeres.

É possível que você tenha se identificado com a situação exposta acima e também é provável que tenha experienciado em algum momento da sua vida sensações, emoções ou pensamentos parecidos.  Se sua resposta for positiva, seja bem vindo (a) ao mundo do estresse e da ansiedade!

 

O Mecanismo Luta ou Fuga

 

Para começar a nossa aventura ao mundo do estresse, do medo e da ansiedade (são fenômenos parecidos, mas não iguais) convido você caro leitor a imaginar como era a vida dos nossos ancestrais. Isso mesmo, ancestrais, mas neste momento não vamos falar de seus avôs ou bisavôs e sim daqueles ancestrais que nós temos em comum: os homens das cavernas! 

Imagine um homem que após uma refeição satisfatória se senta no conforto de sua caverna para descansar. De repente, sem que pudesse prever, aparece um grande animal feroz e ameaça colocar a sua vida em risco. Qual seria sua atitude? Correr ou Atacar? Hoje parece até óbvio imaginar que são essas as alternativas para uma situação de sobrevivência, mas foram (alguns mil) anos de evolução para desenvolver o mecanismo que chamamos hoje de luta ou fuga.¹

Do ponto de vista evolutivo “a ansiedade e o medo, assim como o estresse, têm suas raízes nas reações de defesa dos animais, que ocorrem em resposta aos perigos encontrados em seu meio ambiente²”. Quando um animal ou um ser humano se deparam com uma ameaça à sua integridade física, uma série de respostas fisiológicas são rapidamente ativadas em prol da sobrevivência. Suas pupilas ficam dilatadas para aumentar o campo de visão, os músculos se tensionam para aumentar a força do movimento, o coração fica acelera o fluxo sanguíneo, a respiração também acelera para aumentar o suprimento de oxigênio no sangue e o mesmo deixa a superfície do corpo, prevenindo sangramentos e suprindo melhor os músculos de energia. E há também o aumento da acidez no estômago e do trânsito intestinal para ampliar a produção de nutrientes pela digestão.³

Tudo isso acontece em questões de segundos graças ao sistema nervoso autônomo, responsável por regular funções neurovegetativas de controle involuntário como: sistema respiratório, renal, cardiovascular, digestório e endócrino.² Ao se deparar com um estímulo estressor (animal feroz) uma mensagem é rapidamente percebida e enviada para o hipotálamo, uma estrutura que apesar de pequena possui núcleos que regulam funções importantíssimas para sobrevivência, como sono/vigília, fome, sede, temperatura e emoções.

O hipotálamo pode responder ao estímulo estressor através de uma via de ação rápida que envolve a liberação de adrenalina através da medula da glândula adrenal ou uma via de ação lenta, produzindo corticotropina (CRH) para a hipófise e a fazendo liberar um hormônio chamado adrenocorticotrófico (ACTH) que atua sobre o córtex da glândula adrenal e a estimula a liberar o cortisol na corrente sanguínea. E o que isso significa? Basicamente, a liberação da adrenalina e do cortisol em nosso corpo resulta nos efeitos fisiológicos citados anteriormente, essenciais para a sobrevivência.³

Diante do exposto é possível observar a importância do mecanismo de luta e fuga para sobrevivermos a situações de ameaça e o seu papel fundamental para evolução das espécies. No entanto, será que corremos riscos eminentes todos os dias? Quais seriam os nossos predadores atuais? Você ativou o seu mecanismo na última semana? Para saber mais, fique ligado no próximo texto: “Os predadores atuais: o que nos faz Fugir ou Lutar no século XXI?”

 

Referências:

¹ GARCIA, Marcio Rodrigo. Origem e Evolução: O Estresse como Resposta Adaptativa no Contexto da Vida Moderna. Avesso do Avesso v.12, n.12, p. 7-15, novembro 2014.

 

² MARGIS, Regina; PICON, Patrícia.; COSNER, Annelise Formel; SILVEIRA, Ricardo. Relação entre Estressores, Estresse e Ansiedade.R. Psiquiatr. RS, 25′(suplemento 1): 65-74, abril 2003

 

³ GORAYEB, Maria Angêla Marchini. Ansiedade? Mate essa charada! Material de apoio no tratamento cognitivo-comportamental da ansiedade infanto-juvenil. Novo Hamburgo: Sinopsys, 2014. 64p.